Inflação da energia no Brasil encarece pão e obras

Crédito: Folha de S.Paulo
A inflação da energia no Brasil está pesando no bolso do consumidor e na competitividade das empresas. Um estudo da Ex Ante Consultoria Econômica, encomendado pela Abrace, mostra que o aumento dos gastos com eletricidade, gás e combustíveis se espalha por toda a economia, encarecendo desde o pãozinho até grandes obras. O levantamento analisou a evolução dos preços de 2000 a junho de 2026 e revela que a energia é responsável por grande parte da alta de bens e serviços.
O preço do pãozinho, por exemplo, não é apenas a soma do custo com farinha de trigo, água, fermento, sal e lucro da padaria. Quase 30% é energia — 18,7% em eletricidade e gás dos fornos para assar a massa, outros 11% em combustível para transportar os insumos em vans, caminhões e até navios.
Essa despesa invisível com energia está em todos os produtos e serviços no mundo inteiro, mas disparou no Brasil, tornando-se um importante elemento para elevar o preço de bens e serviços, pressionar a inflação e reduzir a competitividade da economia.
Em 2000, um pãozinho custava cerca de R$ 0,15. Hoje, está perto de R$ 1. Dos R$ 0,85 de aumento, cerca de R$ 0,73 — ou 86% — são atribuídos ao encarecimento das diferentes fontes de energia ao longo da cadeia de produção. Para empresários do setor de panificação e alimentação no noroeste paulista, esse dado acende um alerta sobre a necessidade de gestão eficiente dos custos energéticos.
Estudo revela custo energético escondido nos produtos
Detalhes como esses estão no estudo “O Impacto da Evolução do Custo da Energia no Preço das Mercadorias e na Inflação Brasileiras de 2000 a 2026”. O trabalho foi realizado pela Ex Ante Consultoria Econômica a pedido da Abrace, entidade que representa grandes empresas consumidoras de energia. Segundo Fernando Garcia, coordenador do estudo e sócio-diretor da Ex Ante, o objetivo é mostrar para as famílias brasileiras o custo energético escondido nos produtos e serviços — que é a maior parte.
Dos 100% do consumo dos brasileiros com energia elétrica, 35% é conta de luz. Do total com gás, 14% é gasto na cozinha ou no chuveiro — todo o resto vem embutido em produtos e serviços. “As pessoas enxergam quanto gastam com tarifa de energia, para comprar um botijão ou abastecer o carro no posto, mas não veem a conta invisível que está embutida na produção”, afirma Garcia. Essa percepção é crucial para comerciantes e industriais que precisam repassar custos ou absorver margens cada vez mais apertadas.
“E tem custo de energia escondido em tudo: alimentos, material escolar, remédios, produtos para construção, vestuário, veículos, no copinho de plástico e nas máquinas que produziram tudo isso — e quando esse gasto com energia aumenta, se espalha pela economia. É o que está acontecendo.” A fala de Garcia evidencia como o fenômeno atinge diferentes setores, do varejo à indústria de transformação, com reflexos diretos no comércio do interior paulista.
Participação da energia em itens do dia a dia
O estudo detalha a participação da energia no preço final de diversos produtos. Em um simples caderno escolar, a energia equivale a 34% do preço final; no cimento, a 32%; no vidro, a 30%; na carne do bifinho, a 27%; no café moído, a 19%; e no automóvel, a 12%. Esses percentuais mostram que nenhum segmento escapa do impacto energético, o que preocupa especialmente pequenas e médias empresas que têm menor poder de negociação nas tarifas.
Para o comércio de Araçatuba e região, itens como material escolar e alimentos têm peso significativo na cesta de consumo local. A alta da energia, portanto, pressiona os custos operacionais de lojas, mercados e prestadores de serviços, podendo reduzir a demanda e afetar o faturamento. A transparência desses números ajuda o empresário a planejar estratégias de eficiência e precificação.
Evolução de preços em 26 anos
O estudo também acompanhou a evolução dos preços de 2000 a junho de 2026 de 48 bens e serviços — 32,6% da cesta que compõe o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), tomando como referência o peso médio de cada item ao longo deste ano. Nos 26 anos analisados, energia respondeu por 79% da alta do leite longa vida, 71% do aumento no preço de um tênis, 61% da alta da cerveja e 53% da do desodorante.
Esses dados reforçam que a energia é um vetor inflacionário transversal, afetando desde itens básicos da alimentação até produtos de higiene e vestuário. Para indústrias e distribuidores da região noroeste paulista, compreender essa dinâmica é essencial para antecipar repasses e buscar alternativas de redução de consumo energético, como fontes renováveis ou equipamentos mais eficientes.
O levantamento não detalhou projeções futuras, mas o cenário atual indica que a pressão da energia sobre os preços deve continuar. Empresários locais podem se beneficiar de programas de eficiência energética e de negociações coletivas de tarifas, como as mediadas por associações comerciais e entidades setoriais.
Perguntas Frequentes
Quanto da energia está embutida no preço do pãozinho?
Quase 30% do preço do pãozinho é energia: 18,7% em eletricidade e gás para os fornos e 11% em combustível para transporte dos insumos.
Qual foi a contribuição da energia para o aumento do preço do pãozinho de 2000 a 2026?
Dos R$ 0,85 de aumento no preço do pãozinho (de R$ 0,15 para R$ 1), cerca de R$ 0,73 (86%) são atribuídos ao encarecimento das fontes de energia.
Quais produtos tiveram a maior parte de seu aumento de preço causada pela energia entre 2000 e 2026?
A energia respondeu por 79% da alta do leite longa vida, 71% do aumento do tênis, 61% da alta da cerveja e 53% da do desodorante.




























