Rede elétrica define novo mapa industrial do Brasil

Crédito: NeoFeed
Um estudo do Instituto E+ revela que projetos de aço verde, de terras raras e de data centers vão depender mais da rede elétrica do que de outro fator. A transição energética está redesenhando o mapa industrial do Brasil, e a infraestrutura de transmissão surge como elemento central para o desenvolvimento econômico.
E não são apenas o subsolo, a localização estratégica, como porto ou hub, e o incentivo fiscal que devem definir onde os grandes empreendimentos vão nascer — é a rede elétrica. O estudo, chamado “Metodologia Integrada para Transição Energética e Desenvolvimento Industrial no Brasil”, mostra que na década decisiva que vai de 2029 a 2039 a capacidade de transmissão será o fator determinante se o País conseguirá atrair e sustentar projetos verdes estratégicos.
Simulação revela dependência da transmissão
O estudo simulou o comportamento do sistema elétrico diante da chegada de três tipos de empreendimentos eletrointensivos de transição energética: siderúrgicas de aço verde, plantas de processamento de terras raras e data centers de alta potência. Os resultados indicam que a disponibilidade de conexão em alta tensão pode viabilizar ou inviabilizar esses projetos.
Conforme aponta o estudo, o Brasil dispõe de um arcabouço robusto de políticas públicas visando à transição energética: Plano Nova Indústria Brasil, Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial, Marco Legal do Hidrogênio e Lei do Combustível do Futuro, entre outras. No entanto, nenhum desses instrumentos exige a verificação da capacidade elétrica antes da concessão de incentivos. O resultado é a concentração de investimentos em regiões com recurso renovável e boa logística, mas com restrição de escoamento de energia.
Tensão da linha define escala industrial
Já regiões igualmente ricas em reservas — Catalão (GO), Minaçu (GO) e Paracatu (MG) — estão ligadas a linhas de 138 kV e só comportam plantas-piloto. A diferença não está no subsolo, mas na tensão da linha. Ou seja, é a infraestrutura elétrica que define o tamanho da indústria possível.
Esse padrão se repete em outros setores. A siderurgia de hidrogênio, considerada uma das rotas mais promissoras para descarbonizar o aço, exige redes de alta potência. Uma planta de até 7 milhões de toneladas por ano demanda cerca de 4,4 gigawatts (GW), além de 3,8 GW de geração renovável dedicada.
Gargalos persistem mesmo com expansão
Hoje, apenas Marabá (PA) e Itabira (MG) têm capacidade para suportar esse tipo de conexão nas redes de 500 kV. Com a expansão prevista para os próximos dez anos, o País tende a reduzir esse gargalo — mas sem eliminá-lo. Sem planejamento de acesso, o risco permanece.
Isso porque, de acordo com o estudo, o caminho mais barato do aço verde não trava na energia — trava na sucata. A rota que recicla aço em forno elétrico é a de menor risco elétrico e menor custo no curto prazo.
Exemplos locais mostram impacto direto
Em Campinas, por exemplo, a conexão em 500 kV permite expansão estável e segura, enquanto a rede de 138 kV impõe limites rígidos e demanda reforços constantes. Em Fortaleza, a diferença é ainda mais clara: a rede de 230 kV sustenta grandes hubs digitais, mas a alternativa em 69 kV restringe a escala, aumenta a exposição a interrupções e obriga investimentos pesados em redundância interna.
Para empresários e comerciantes do noroeste paulista, o estudo acende um alerta: a infraestrutura elétrica pode determinar quais regiões receberão os investimentos da nova economia verde. Municípios como Araçatuba, Birigui e Penápolis precisam avaliar sua capacidade de transmissão para não ficarem à margem desse movimento.
Perguntas Frequentes
Por que a rede elétrica é considerada a ‘chave’ do novo mapa do poder industrial no Brasil?
A rede elétrica é o fator determinante para atrair e sustentar projetos verdes estratégicos, pois a capacidade de transmissão define onde grandes empreendimentos podem se instalar, superando fatores como subsolo, localização e incentivos fiscais.
Quais setores industriais no Brasil dependem mais da capacidade da rede elétrica para se desenvolver?
Os setores de aço verde, processamento de terras raras e data centers de alta potência são os mais dependentes, pois são eletrointensivos e exigem redes de alta tensão para operar em escala comercial.
Quais regiões brasileiras têm capacidade elétrica para suportar grandes projetos de aço verde?
Atualmente, apenas Marabá (PA) e Itabira (MG) têm capacidade para suportar conexões de alta potência (500 kV) para plantas de aço verde de até 7 milhões de toneladas por ano, que demandam cerca de 4,4 GW.




























