Oferta de gás natural no Brasil crescerá 50% até 2035

Crédito: O GLOBO
O Brasil se prepara para um salto significativo na oferta de gás natural nos próximos anos. Com a entrada em operação de novos projetos de produção e escoamento, a expectativa é que o volume disponível no país atinja 87 milhões de metros cúbicos por dia em 2035, um aumento de 50% em relação aos níveis atuais. A expansão é liderada por gigantes do setor, como Petrobras e Equinor, mas traz consigo um desafio central: será preciso estimular o consumo para absorver todo esse gás.
Os investimentos bilionários em infraestrutura e produção já estão em andamento, com obras em alto-mar e em terra firme. No entanto, especialistas e empresas do setor apontam que, sem políticas de incentivo à demanda, parte desse gás pode não encontrar compradores, especialmente diante da concorrência de combustíveis mais baratos utilizados pela indústria.
Projetos ampliam capacidade de produção
A Equinor, multinacional norueguesa, concluiu a instalação de mais de 200 quilômetros do trecho em águas ultraprofundas do gasoduto de escoamento de gás natural do projeto Raia. Esse empreendimento reúne diferentes campos no pré-sal da Bacia de Campos e tem como sócias a Repsol Sinopec e a Petrobras. A estrutura é peça-chave para levar o gás produzido no mar até a costa.
Em Macaé, no Rio de Janeiro, a companhia norueguesa está na reta final para conectar a infraestrutura submarina ao terminal de processamento e distribuição de Cabiúnas. Essa conexão permitirá que o gás extraído no pré-sal seja tratado e enviado ao mercado consumidor. Enquanto isso, no Nordeste, a Petrobras já aprovou o projeto para construir duas plataformas destinadas a explorar gás no litoral de Sergipe-Alagoas e iniciou as licitações para os primeiros equipamentos submarinos.
A estatal brasileira prevê destinar US$ 11 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões) para produzir gás em Sergipe-Alagoas a partir de 2031, em diversos campos com a IBV Brasil Petróleo e a ONGC Campos. As duas plataformas terão capacidade para processar 22 milhões de metros cúbicos por dia e escoar o produto por um gasoduto de 134 km de extensão, a partir de 32 poços. Esses números revelam a magnitude do investimento e o potencial de oferta adicional.
Além disso, a Petrobras realiza a revitalização de Albacora, na Bacia de Campos, que prevê um FPSO com capacidade de produção de até 4,3 milhões de metros cúbicos por dia, com início previsto também para 2031. Há ainda a Rota 3, gasoduto que conecta os campos do pré-sal ao Complexo de Energias Boaventura (antigo Comperj), em Itaboraí, com capacidade para escoar até 18 milhões de metros cúbicos por dia. Somados, esses projetos reforçam a infraestrutura de oferta no Sudeste e no Nordeste.
Gás natural impulsiona fertilizantes
O aumento na produção de gás ajudará a Petrobras a acelerar seus projetos de fertilizantes — o Brasil atualmente importa cerca de 85% de seu consumo. O gás natural será usado como matéria-prima para produzir amônia, base para a fabricação de ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na agricultura. Essa integração entre energia e agronegócio pode reduzir a dependência externa e fortalecer a indústria nacional.
Para isso, a estatal retomou as obras da unidade de Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, com investimentos de R$ 5 bilhões, prevista para entrar em operação em 2029. A planta consumirá gás natural como insumo, criando uma demanda cativa e estratégica. A iniciativa também pode beneficiar produtores rurais do interior paulista, que dependem de fertilizantes para suas lavouras.
A conexão com o agronegócio é evidente: municípios como Araçatuba, Birigui, Penápolis e Andradina, no noroeste paulista, têm forte atividade agrícola e podem se beneficiar de uma oferta mais estável e possivelmente mais barata de fertilizantes nitrogenados. A redução da dependência de importações pode trazer previsibilidade de custos para os produtores locais.
Demanda ainda é o gargalo
Especialistas e empresas, no entanto, veem desafios, pois faltam iniciativas para estimular a demanda, já que as indústrias ainda preferem usar uma opção mais barata, como o coque, produzido a partir do carvão mineral. O coque, amplamente utilizado em siderúrgicas e outros setores intensivos em energia, compete diretamente com o gás natural, mas tem custo inferior em muitos casos. Sem incentivos ou políticas de precificação, a migração para o gás pode ser lenta.
A Equinor deu início a uma força-tarefa para vender esse gás, criando um portfólio de contratos. Já selou acordo de dez anos com a Comgás, começando com 50 mil metros cúbicos por dia e aumentando gradualmente até um pico de 1 milhão de metros cúbicos por dia. Esse tipo de contrato de longo prazo é essencial para dar previsibilidade aos produtores e estimular o consumo industrial.
A Petrobras, por sua vez, informou que nos últimos anos vem buscando ampliar o volume de clientes industriais que operam no mercado livre e atuam em setores como siderúrgico, metalúrgico, papel e celulose, cerâmico, entre outros. “Criamos condições comerciais com diferentes prazos contratuais, diferentes indexadores, preços competitivos, aliados a prêmios para consumos incrementais”, informou a estatal em nota.
Ambiente regulatório mais competitivo
A concentração no setor foi reduzida na última década, com o estímulo das mudanças no ambiente regulatório por meio dos programas Gás para Crescer (2016), Novo Mercado de Gás (2019) e Gás para Empregar (2023), que levaram a um número maior de empresas vendendo e produzindo gás. Essa abertura de mercado é apontada como um fator positivo para a competitividade, mas ainda há espaço para avançar na atração de novos consumidores.
Para o empresariado do noroeste paulista, a expansão da oferta de gás natural pode representar oportunidades em setores como cerâmica, alimentos e metalurgia, que poderiam migrar para uma matriz energética mais limpa e eficiente. No entanto, a decisão de investir na conversão de equipamentos depende de sinais claros de preço e disponibilidade contínua.
A expectativa de um salto de 50% na oferta até 2035 coloca o Brasil diante de uma encruzilhada: ou se criam condições para absorver esse gás, ou parte da infraestrutura pode ficar ociosa. O sucesso dessa transição energética dependerá de políticas públicas, acordos comerciais e da capacidade da indústria de se adaptar a um novo cenário de abundância.
Perguntas Frequentes
Qual é a expectativa de aumento na oferta de gás natural no Brasil com os novos projetos?
A expectativa é que o volume atinja 87 milhões de metros cúbicos por dia em 2035, representando um aumento de 50% na oferta.
Quais são os principais projetos que vão impulsionar a produção de gás natural no Brasil?
Entre os principais projetos estão o projeto Raia, da Equinor, com gasoduto de escoamento em águas ultraprofundas; as plataformas da Petrobras em Sergipe-Alagoas, com capacidade de 22 milhões de m³/dia; a revitalização de Albacora, com FPSO de até 4,3 milhões de m³/dia; e a Rota 3, com capacidade de 18 milhões de m³/dia.
Por que especialistas afirmam que será preciso estimular o consumo de gás natural no Brasil?
Porque as indústrias ainda preferem usar opções mais baratas, como o coque produzido a partir do carvão mineral, e faltam iniciativas para estimular a demanda.




























