Carros elétricos chineses na Tailândia: alerta para o Brasil

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Carros elétricos chineses Tailândia: alerta ao Brasil

BANGKOC — No polo automotivo de Rayong, na Tailândia, a BYD — maior fabricante de veículos elétricos da China — ergueu sua primeira fábrica fora do território chinês: um complexo do tamanho de 180 campos de futebol. A chegada da montadora simboliza uma transformação profunda na indústria tailandesa, que por décadas foi dominada por fabricantes japoneses. O impacto dessa mudança, no entanto, trouxe consequências severas para a cadeia produtiva local e serve de alerta para o Brasil, que vive um momento semelhante de expansão dos elétricos chineses.

Domínio japonês de décadas é quebrado

Por décadas, as montadoras japonesas dominaram a Tailândia. Elas chegaram nos anos 1960, estruturaram cadeias de suprimentos e transformaram o país na “Detroit do Oriente”. Até que os chineses desembarcaram. A chegada das fabricantes da China foi rápida e agressiva, com investimentos em produção local e uma oferta crescente de veículos elétricos a preços competitivos. Em poucos anos, a participação das marcas japonesas no mercado tailandês despencou, alterando um equilíbrio que parecia consolidado.

O baque atingiu em cheio os fornecedores locais de autopeças vinculados às marcas japonesas. Várias empresas faliram, colocando em risco uma cadeia produtiva que emprega cerca de 700 mil trabalhadores. A velocidade da transição surpreendeu até mesmo os planejadores do governo. “A mudança foi muito mais rápida do que qualquer um previa”, admite Supavud Saicheua, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, órgão central de planejamento do governo tailandês. “Não levamos em conta o impacto global”, acrescenta. “As consequências para a Tailândia foram muito piores do que imaginávamos.”

Fábricas japonesas fecham e empregos somem

O avanço dos elétricos chineses também provocou o fechamento de fábricas de montadoras japonesas na Tailândia. A perda de participação de mercado levou a reestruturações drásticas, com demissões em massa e redução da produção. Para os empresários do setor automotivo no Brasil, especialmente aqueles que atuam no interior paulista, o caso tailandês é um sinal de alerta: a transição para o veículo elétrico pode desestruturar cadeias produtivas inteiras se não houver planejamento e políticas de transição adequadas.

A operação da BYD na Tailândia gera empregos, mas tem alta robotização. A modernização das linhas de montagem reduz a necessidade de mão de obra intensiva, o que pode não compensar as perdas nos fornecedores tradicionais. Esse descompasso entre novos empregos e postos eliminados é um dos principais desafios apontados por economistas que acompanham o setor. Para o comércio e a indústria de cidades como Araçatuba, Birigui e Penápolis, que possuem empresas ligadas à cadeia automotiva, o impacto pode ser sentido em médio prazo.

Governo tailandês tenta conter a crise

A Tailândia tenta agora estancar a sangria. No mês passado, o primeiro-ministro Anutin Charnvirakul viajou a Tóquio para tentar acalmar os executivos japoneses. Um mês antes, ele já havia determinado a revisão de regras que, segundo as empresas do Japão, criavam uma concorrência desleal. A pressão das montadoras japonesas levou o governo a agir, mas os resultados ainda são incertos.

Mas o ritmo dessa invasão assusta os economistas. Nos primeiros sete meses deste ano, dois terços dos elétricos vendidos no país foram importados — a maioria vinda diretamente da China. A dependência de importações preocupa porque reduz o valor agregado local e enfraquece a indústria nacional de autopeças.

Para conter a onda de importados, o governo lançou no mês passado uma alíquota de impostos em três níveis: cobrou a taxa máxima das marcas que só importam sem planos de produzir localmente e concedeu o menor imposto para as empresas que utilizam uma fatia expressiva de peças produzidas na Tailândia.

O que o Brasil pode aprender

O caso tailandês oferece lições importantes para o Brasil, que também vê a chegada acelerada de montadoras chinesas de elétricos. A experiência asiática mostra que a transição pode ser disruptiva para fornecedores locais e empregos se não houver políticas de conteúdo local e incentivos à adaptação da cadeia produtiva. Para os empresários do noroeste paulista, especialmente aqueles que fornecem componentes ou serviços para o setor automotivo, é fundamental acompanhar as discussões sobre regras de importação e incentivos à produção nacional.

“A revolução não é chinesa, é tecnológica”, diz chefe da chinesa Baic. A frase resume o desafio: a eletrificação é uma tendência global, e não apenas uma disputa entre países. O Brasil precisa decidir como se posicionar nesse novo cenário, equilibrando a atração de investimentos com a proteção de sua base industrial. A experiência tailandesa demonstra que a ausência de planejamento pode custar caro em termos de empregos e competitividade.

Impacto para o comércio do interior paulista

Para cidades como Araçatuba, que possuem um setor de comércio e serviços dependente da renda gerada pela indústria, a reestruturação do setor automotivo pode ter efeitos indiretos. A redução de empregos na cadeia automotiva diminui o poder de compra das famílias, afetando o varejo local. Além disso, empresas de autopeças e serviços de manutenção podem precisar se adaptar rapidamente às novas tecnologias dos veículos elétricos, que exigem menos componentes mecânicos e mais eletrônicos.

Oswaldo Ramos retorna ao comando de mais uma montadora asiática que pretende disputar estar entre as cinco melhores do país com veículos até R$ 200 mil. Esse movimento indica que a concorrência no mercado brasileiro de elétricos deve se intensificar, pressionando ainda mais as montadoras tradicionais e seus fornecedores. Para os empresários da região, a recomendação é monitorar de perto as políticas públicas e buscar capacitação para atuar no novo cenário da mobilidade elétrica.

Tudo isso aconteceu nos últimos cinco anos — o retrato de uma indústria em profunda transformação. O alerta tailandês serve como um estudo de caso para o Brasil, que pode evitar os mesmos erros se agir com planejamento e diálogo entre governo, indústria e trabalhadores.

Perguntas Frequentes

Como a chegada das montadoras chinesas de carros elétricos afetou a indústria automotiva da Tailândia?

A invasão de marcas chinesas quebrou fornecedores locais, fez montadoras japonesas fecharem fábricas e gerou demissões, colocando em risco uma cadeia produtiva que emprega cerca de 700 mil trabalhadores.

Qual foi a reação do governo tailandês diante da crise no setor automotivo causada pelos elétricos chineses?

O primeiro-ministro viajou a Tóquio para acalmar executivos japoneses e determinou a revisão de regras que criavam concorrência desleal; além disso, lançou uma alíquota de impostos em três níveis para conter a onda de importados.

Por que o cenário da Tailândia acende um alerta para o mercado brasileiro de carros elétricos?

Porque a rápida penetração dos elétricos chineses na Tailândia causou falências de fornecedores locais e fechamento de fábricas japonesas, um risco semelhante ao que o Brasil pode enfrentar com a chegada dessas marcas.

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