Expectativas de inflação disparam após segundo turno

Crédito: Folha de S.Paulo
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno fez saltar as expectativas de inflação de analistas de mercado para os próximos anos, mostra pesquisa realizada pela corretora BGC Liquidez com cerca de 30 participantes de mercado. O levantamento, feito com gestores e tesourarias de bancos, aponta uma piora significativa nas projeções para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
A mediana das estimativas, medida que desconsidera valores muito altos ou muito baixos, vê o índice em 5,3% no ano que vem e 4,3% no final de 2028.
A pesquisa da BGC é feita com analistas que tradicionalmente revisam mais rápido suas expectativas, e costuma antecipar em duas semanas a pesquisa Focus, que ouve também especialistas que levam mais tempo para rever suas projeções. A próxima será divulgada pelo BC na terça-feira (3). Esse movimento deve se refletir em breve nas expectativas oficiais do mercado, sinalizando um cenário de inflação mais pressionada para os próximos anos.
Pressão nos preços administrados e combustíveis
Segundo o economista da BGC, a maior fonte de pressão sobre o IPCA projetado para o ano que vem vem dos preços administrados, influenciados principalmente por combustíveis, como gasolina e diesel, que subirão mais no mercado interno com o real mais fraco. “O preço dos combustíveis é dado no mercado internacional, e o Brasil importa 30% do seu diesel. Sem os riscos fiscais, o câmbio de equilíbrio seria algo próximo de R$ 4,50, até abaixo disso”, avalia.
Essa dinâmica tende a encarecer custos logísticos e de produção, afetando diretamente o comércio e a indústria.
Além disso, 11% dos ouvidos no levantamento feito nesta semana veem uma inflação ainda maior, acima de 6%, em dezembro do ano que vem. A dispersão das projeções reflete a incerteza quanto à trajetória fiscal e cambial, o que dificulta o planejamento de empresas de todos os portes, especialmente as PMEs do interior paulista.
Impacto da escala 6×1 e do fiscal
Thadeu, economista da BGC, ainda menciona a aprovação do fim da escala 6×1 como fonte de pressão sobre a inflação do ano que vem. “Você mudar a escala 5×2 significa precisar de pelo menos 10% a mais de mão de obra”, estima. Para o comércio varejista e serviços, que dependem intensamente de mão de obra, essa mudança pode elevar custos operacionais e, consequentemente, preços ao consumidor final.
A preocupação dos economistas é com o cenário fiscal, que requer um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos, como mostrou a Folha, em um momento em que a dívida bruta do Brasil já chega a quase 83% do PIB (Produto Interno Bruto), o maior nível em cinco anos. O governo Lula prevê um déficit de R$ 67,3 bilhões neste ano, ou 0,5% do PIB, o que significa que a dívida bruta vai subir ainda mais.
Para economistas, o saldo das contas precisaria, idealmente, subir a 2% ou 2,5% do PIB até 2030, sem recorrer a subterfúgios ou descontos, mas eles ainda não veem uma sinalização clara de que a política fiscal se encaminhará nessa direção.
Efeitos para o comércio do noroeste paulista
Para empresários e comerciantes de Araçatuba, Birigui, Penápolis, Andradina e Mirandópolis, a elevação das expectativas de inflação sinaliza um ambiente de custos mais altos e juros potencialmente mais elevados por mais tempo. “O mercado estava disposto a dar o benefício da dúvida para o Flávio Bolsonaro, com a expectativa de cortes de gastos e Selic mais baixa. Com a reeleição do Lula, essa precificação foi devolvida”, diz o economista da BGC.
A piora nas projeções tende a pressionar o crédito e o consumo, afetando o faturamento de pequenos e médios negócios da região.
Diante desse cenário, entidades como ACSP, CDL e Sebrae recomendam cautela na gestão de estoques e renegociação de contratos, além de atenção redobrada aos repasses de preços. A expectativa é de que o Banco Central mantenha a taxa Selic em patamar elevado para conter a inflação, o que encarece o capital de giro e reduz a margem de lucro das empresas locais.
Perguntas Frequentes
Qual é a expectativa de inflação para 2026 após a reeleição de Lula?
A mediana das estimativas coletadas pela BGC Liquidez aponta IPCA de 5,3% em 2026.
Por que as expectativas de inflação subiram após o segundo turno?
A reeleição de Lula gerou preocupação com o cenário fiscal, exigindo ajuste de R$ 250 bilhões, e com a alta dos preços administrados, como combustíveis, devido ao real mais fraco.
Qual é a projeção de inflação para 2028 segundo a pesquisa da BGC?
A mediana das projeções indica IPCA de 4,3% no final de 2028.




























