Inflação: dólar e El Niño pressionam após eleição

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A recente disparada do dólar, somada aos impactos iniciais do fenômeno climático El Niño sobre os preços dos alimentos, está levando economistas a revisar para cima as projeções para a inflação brasileira nos próximos anos. A moeda americana fechou a sexta-feira (30) em R$ 5,447, a maior cotação deste ano, acumulando alta de 9,2% na semana seguinte à reeleição do presidente Lula (PT). O movimento é interpretado como uma resposta do mercado financeiro ao temor de um ajuste fiscal insuficiente por parte do governo.

Segundo analistas, a ameaça inflacionária ocorre em um momento no qual os preços dos alimentos já refletem os efeitos iniciais do El Niño, fenômeno climático que tende a elevar os custos de produção agrícola. Caso o dólar se mantenha em nível superior ao verificado antes das eleições, a pressão sobre os preços pode se espalhar por diferentes setores da economia, afetando desde a indústria até o comércio varejista.

Dólar alto pressiona custos em cadeia

A moeda americana afeta diretamente a produção de bens que dependem da importação de insumos e serve de referência para as cotações de commodities, incluindo as agrícolas. “Quase tudo responde ao câmbio, em maior ou menor grau, mas tem alguns candidatos [principais], como os preços de combustíveis, alimentos e alguns bens duráveis. A gama é gigantesca”, afirma o economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence.

Para o comércio e a indústria do interior paulista, a alta do dólar encarece matérias-primas importadas, componentes eletrônicos, fertilizantes e até mesmo produtos acabados, reduzindo margens e pressionando os preços ao consumidor final. A região de Araçatuba, com forte presença no agronegócio e na indústria calçadista de Birigui, sente os efeitos tanto na compra de insumos quanto na competitividade das exportações.

Projeções de inflação são revisadas para cima

Diante desse cenário, Fábio Romão elevou suas estimativas para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 2026, de 5,18% para 5,31%, e em 2027, de 4,23% para 5%. O economista afirma que a mudança na curva de câmbio puxou a revisão para cima, seguida pela possibilidade de efeitos mais intensos do El Niño sobre os preços.

Eventuais aumentos nos custos de parte dos setores com o fim da escala 6×1 e a reforma tributária são fatores de menor influência para a alteração nas estimativas, indica Romão. A meta de inflação perseguida pelo Banco Central tem centro de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para menos ou para mais, o que significa piso de 1,5% e teto de 4,5%.

Preocupação se estende para 2027

“Não é só uma inflação preocupante em 2026. Começa a ficar preocupante também para 2027”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. Ele prevê altas de 5,2% para o IPCA em 2026 e de 4,5% em 2027, acima do teto da meta.

Para empresários e comerciantes, a perspectiva de inflação mais alta por dois anos consecutivos exige planejamento financeiro cuidadoso, renegociação de contratos com fornecedores e atenção redobrada à gestão de estoques. A alta dos alimentos, em particular, tende a impactar o poder de compra das famílias e, consequentemente, o movimento no varejo de bens não essenciais.

Impactos para o noroeste paulista

Na região de Araçatuba e cidades vizinhas, a combinação de dólar forte e El Niño pode elevar os custos de produção no campo, especialmente para culturas como cana-de-açúcar, milho e soja, além de encarecer rações e insumos para a pecuária. O repasse desses custos ao longo da cadeia tende a pressionar os preços nos supermercados e no comércio local.

Além disso, a indústria calçadista de Birigui, que depende de componentes importados e exporta parte da produção, enfrenta um duplo desafio: custos maiores em reais e menor competitividade no mercado externo. A fonte não detalhou projeções específicas para o setor, mas o cenário macroeconômico indica necessidade de cautela.

Diante desse quadro, entidades como ACSP, CDL e Sebrae recomendam que pequenas e médias empresas revisem seus orçamentos, busquem alternativas de fornecedores nacionais e avaliem estratégias de hedge cambial quando possível. A manutenção do dólar em patamar elevado e a intensidade do El Niño serão determinantes para o comportamento dos preços nos próximos meses.

Perguntas Frequentes

Por que o dólar subiu após a reeleição de Lula e como isso afeta a inflação?

O dólar subiu 9,2% na semana pós-reeleição, fechando a R$ 5,447, devido ao temor do mercado de um ajuste fiscal insuficiente. Esse aumento pressiona a inflação, pois afeta preços de combustíveis, alimentos e bens duráveis, levando economistas a revisar para cima as projeções do IPCA.

Quais são as novas projeções do IPCA para 2026 e 2027 após a alta do dólar e o El Niño?

Economistas revisaram as projeções: Fábio Romão (4intelligence) elevou o IPCA de 2026 para 5,31% e de 2027 para 5%; Sergio Vale (MB Associados) prevê 5,2% para 2026 e 4,5% para 2027. A meta do Banco Central é 3%, com teto de 4,5%.

Além do câmbio, que outros fatores estão pressionando a inflação de alimentos?

Os preços dos alimentos já refletem os impactos iniciais do fenômeno climático El Niño, que se soma ao efeito do dólar alto. O dólar também é referência para commodities agrícolas, ampliando a pressão sobre os alimentos.

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