Orçamento barra plano de Flávio Bolsonaro para infraestrutura

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Orçamento barra plano Flávio Bolsonaro infraestrutura

O plano de governo do senador Flávio Bolsonaro (PL) para a área de infraestrutura prevê R$ 900 bilhões em investimentos no setor de transportes ao longo de quatro anos, com foco em privatizações, parcerias público-privadas e outras formas de financiamento. Especialistas ouvidos pelo UOL, porém, consideram a meta ambiciosa e sem lastro orçamentário, o que pode comprometer a viabilidade das propostas.

Meta bilionária esbarra no orçamento federal

Daniel Keller, sócio da consultoria Una Partners, afirma que os R$ 900 bilhões “cabem” na necessidade do país, mas não no Orçamento. O orçamento federal para rodovias ficou abaixo de R$ 15 bilhões em 2025, e ele estima que a União chegue a 2027 com cerca de R$ 30 bilhões para rodovias e ferrovias, “com algum otimismo”.

O plano fala em “segurança jurídica, regras tarifárias estáveis e previsíveis e respeito à lógica das decisões econômicas privadas (…) e é sobre essa base que o investimento privado assume a construção e a operação”. No entanto, a concretização dessa premissa depende de um ambiente de negócios que ainda não se consolidou no país.

Segundo a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), o Brasil investiu R$ 280 bilhões em infraestrutura em 2025 e deve aplicar R$ 300 bilhões neste ano, o que corresponde a algo na faixa de 2,2% do PIB, somando todos os setores. Para atingir a meta de Flávio, seria necessário mais do que triplicar o volume anual de investimentos apenas em transportes.

Projetos greenfield exigem aporte público

O calcanhar de Aquiles do plano é a alta exigência de investimento público, especialmente em projetos novos, chamados de “greenfield” no jargão do mercado. Estima-se que só a construção do zero de uma ferrovia custe cerca de R$ 30 milhões por quilômetro. Seriam R$ 30 bilhões para uma estrada de mil quilômetros.

“Mesmo pensando na força do nosso agro, a gente não vê empresas com apetite ao risco nesse nível. Em um projeto ‘greenfield’, não se tem nada. Você gasta muito dinheiro, e depois são seis, sete, oito anos sem receber um real. Projetos assim exigem um aporte público muito significativo”, afirma Keller.

Não é que o empresário brasileiro seja mais receoso, explica o consultor. “Não é que o empresário brasileiro é mais medroso, nada disso. Com projetos desse tipo, é assim que se faz em qualquer lugar do mundo”, diz Daniel Keller, sócio da consultoria Una Partners.

Ferrovias em destaque, mas com entraves

As ferrovias têm bom destaque no plano de governo de Flávio Bolsonaro. O documento cita nominalmente projetos como o da Ferrogrão, o Trem do Nordeste, uma estrada férrea de passageiros que ligaria capitais da região, e a ainda inacabada Transnordestina, que prevê ligar Eliseu Martins, no Cerrado do Piauí, aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE).

O plano fala explicitamente em “destravar a Ferrogrão”, projeto que ficou parado até o STF (Supremo Tribunal Federal) julgar se era constitucional a mudança dos limites do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará, que está no traçado da ferrovia. O STF aprovou a mudança, e agora a ANTT dá andamento ao processo de concessão.

Apesar do avanço jurídico, a viabilidade financeira desses empreendimentos ainda depende de forte participação estatal, o que contrasta com a promessa de protagonismo privado.

Agenda de Estado, não de governo

Em muitos aspectos, o plano dá continuidade à agenda atual — e isso não é necessariamente algo negativo. O atual programa de concessões começou no governo de Michel Temer (2016-2018), prosseguiu no mandato de Jair Bolsonaro (2019-2022) e acelerou-se no governo Lula.

“Seja em um governo Lula 4 ou com Flávio 1”, opina Glanzmann, a carteira de leilões “só vai andar para a frente. Infraestrutura no Brasil já é uma agenda de Estado, não é mais agenda de governo”. Segundo ele, há cerca de dez leilões de rodovias previstos para 2027 e 34 estudos de concessão contratados.

Para o setor produtivo do interior paulista, a continuidade das concessões é vista como essencial para reduzir custos logísticos e melhorar a competitividade. No entanto, a falta de clareza sobre as fontes de financiamento do plano de Flávio Bolsonaro gera incerteza entre empresários e investidores.

Risco de estelionato eleitoral

A promessa de R$ 900 bilhões sem indicação de origem dos recursos levanta o alerta para o chamado “estelionato eleitoral”, termo usado quando candidatos apresentam metas irrealistas apenas para atrair votos. A fonte não detalhou se o plano prevê aumento de impostos, corte de despesas ou emissão de dívida para bancar os investimentos.

Para os empresários de Araçatuba e região noroeste paulista, a infraestrutura é um fator crítico para o escoamento da produção agroindustrial e para a atração de novos negócios. A indefinição sobre o financiamento pode adiar decisões de investimento e manter o custo logístico elevado.

O plano de Flávio Bolsonaro, portanto, enfrenta o desafio de transformar uma meta bilionária em projetos concretos com fontes de recursos definidas, sob pena de se tornar mais uma promessa sem efeito prático para a economia real.

Perguntas Frequentes

Qual é a meta de investimento em transportes do plano de Flávio Bolsonaro e por que especialistas a consideram ambiciosa?

O plano promete R$ 900 bilhões em transportes em quatro anos, mas especialistas apontam que o orçamento federal para rodovias ficou abaixo de R$ 15 bilhões em 2025, tornando a meta sem precedentes e de difícil viabilização.

Quanto custa construir uma ferrovia do zero e como isso impacta a viabilidade dos projetos ferroviários do plano?

Estima-se que a construção de uma ferrovia greenfield custe cerca de R$ 30 milhões por quilômetro, o que exigiria R$ 30 bilhões para mil quilômetros, demandando aporte público significativo, pois empresas não têm apetite para assumir todo o risco.

O plano de Flávio Bolsonaro menciona projetos ferroviários específicos? Quais são eles?

Sim, o plano cita nominalmente a Ferrogrão, o Trem do Nordeste (ferrovia de passageiros ligando capitais da região) e a Transnordestina, que ligará Eliseu Martins (PI) aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE).

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