Trump ameaça exportações de diesel e alarma mercado

Crédito: Folha de S.Paulo
A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as exportações de diesel daquele país acendeu um alerta no mercado brasileiro, que conta com fornecedores americanos para cobrir o déficit de produção interno. Em setembro, cerca de 80% das importações brasileiras de diesel vieram de refinarias nos Estados Unidos, segundo a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). O Brasil importa cerca de 30% de seu consumo do combustível e tem vivido episódios pontuais de desabastecimento.
O presidente dos Estados Unidos comentou o assunto nesta quarta-feira (23) durante encontro com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski. O republicano disse que o país exporta muito diesel e defendeu uma suspensão temporária, que poderia reduzir os preços internos do combustível. “Eu já disse que não devemos exportar diesel”, afirmou ele aos repórteres presentes. “Já defendi isso junto à minha equipe”. A medida dependeria, segundo Trump, de estudos sobre os efeitos na produção de gasolina nas refinarias do país.
Dependência brasileira do diesel americano
Os Estados Unidos substituíram a Rússia como maior fornecedor do Brasil depois que Moscou suspendeu as exportações daquele país em meio a ataques ucranianos a importantes refinarias. Sem o diesel russo, o mercado brasileiro teve que se voltar para as refinarias americanas. Essa mudança repentina na matriz de importação deixou o abastecimento nacional mais vulnerável a decisões políticas externas, como a ameaça de Trump.
Para empresários e comerciantes do interior paulista, que dependem do diesel para transporte de mercadorias e operação de máquinas, a incerteza gera apreensão. O combustível é essencial para o escoamento da produção agrícola e para a logística de distribuição, setores vitais na região de Araçatuba e noroeste paulista. Qualquer restrição na oferta pode elevar custos e pressionar os preços ao consumidor final.
Reações do setor e riscos de desabastecimento
Executivos de grandes distribuidoras também demonstraram preocupação em conversas com a Folha, embora alguns tenham o sentimento de que a ameaça não se realizará, diante da possibilidade de judicialização pelas empresas exportadoras. “Todos estamos preocupados”, afirmou em evento no Rio de Janeiro o especialista em refino da S&P Global Felipe Perez. “Sabemos que o mundo inteiro está numa restrição de volumes, e agora tem essa decisão dos Estados Unidos”.
O presidente da Vibra Energia, Ernesto Pousada, respondeu não acreditar que a medida seja de fato implementada e disse que, caso seja, a empresa tem buscado diversificar suas fontes de suprimento do combustível. No mesmo evento, a diretora de Comercialização, Logística e Mercado da Petrobras, Angelica Laureano, disse que a empresa já encomendou 650 milhões de litros do combustível para outubro, o suficiente para atender seus contratos.
Fontes do setor dizem, porém, que eventual suspensão das exportações americanas pode pôr em risco o abastecimento de novembro — já que o consumo tende a crescer na Europa, gerando maior disputa pelo produto e maiores preços. A ameaça de corte nas exportações ocorre em um cenário de mercado já afetado pelas guerras na Ucrânia e no Irã e às vésperas do mês de maior consumo de diesel no Brasil, com o uso do combustível no escoamento da produção agrícola e no plantio da próxima safra.
Impacto no agronegócio e no comércio regional
Para o agronegócio, principal motor econômico do noroeste paulista, o diesel é insumo crítico em todas as etapas, do plantio à colheita e transporte. A região de Araçatuba, conhecida pela produção de cana-de-açúcar, pecuária e grãos, depende de fluxo contínuo do combustível para manter a competitividade. Um eventual desabastecimento ou alta acentuada nos preços poderia reduzir margens de produtores e elevar custos logísticos para cooperativas e tradings.
Comerciantes locais também sentem os efeitos indiretos, pois o repasse do frete afeta o preço final de mercadorias. Além disso, postos de combustíveis, muitos deles pequenos negócios familiares, podem enfrentar dificuldades de reposição de estoques caso a oferta internacional se retraia. A incerteza atual reforça a importância de políticas de estoques estratégicos e da diversificação de fornecedores, temas que ganham urgência no debate setorial.
Perspectivas e monitoramento do mercado
Embora a ameaça de Trump ainda não tenha se concretizado, o mercado brasileiro acompanha de perto os desdobramentos. A possibilidade de judicialização por exportadores americanos e a necessidade de estudos sobre impactos na produção de gasolina são fatores que podem adiar ou inviabilizar a medida. No entanto, a dependência atual do diesel americano deixa o Brasil exposto a decisões unilaterais, reforçando a necessidade de planejamento estratégico por parte de distribuidoras, importadores e grandes consumidores.
Especialistas recomendam que empresas do setor de logística e agronegócio monitorem os estoques e avaliem contratos de fornecimento com antecedência. A diversificação de origens, ainda que limitada no curto prazo, é apontada como caminho para reduzir vulnerabilidades. Enquanto isso, o governo brasileiro não se pronunciou oficialmente sobre o tema, e a fonte não detalhou eventuais medidas de contingência.
O cenário internacional permanece volátil, com guerras na Ucrânia e no Irã pressionando os preços globais de energia. Para o empresariado do interior paulista, a recomendação é acompanhar diariamente as cotações e manter canais de diálogo com associações comerciais, como a ACIA, para troca de informações e estratégias conjuntas de mitigação de riscos.
Perguntas Frequentes
Qual a participação dos Estados Unidos nas importações brasileiras de diesel?
Em setembro, cerca de 80% das importações brasileiras de diesel vieram de refinarias nos Estados Unidos, segundo a Abicom.
Por que o Brasil depende tanto do diesel americano?
Os Estados Unidos substituíram a Rússia como maior fornecedor do Brasil depois que Moscou suspendeu as exportações em meio a ataques ucranianos a refinarias.
O que Trump disse sobre as exportações de diesel dos EUA?
Trump afirmou que os EUA exportam muito diesel e defendeu uma suspensão temporária, dizendo: “Eu já disse que não devemos exportar diesel”.



























