Biorrefinaria de cana amplia valor além do etanol

Crédito: Agrolink
As usinas de cana-de-açúcar têm espaço para ampliar receitas e eficiência com melhor aproveitamento das correntes geradas após a produção de açúcar e etanol. O setor sucroenergético, tradicionalmente focado nesses dois produtos principais, começa a enxergar valor em fluxos que antes eram considerados resíduos ou subprodutos de menor importância. A mudança de perspectiva pode representar um novo ciclo de rentabilidade para as plantas industriais, especialmente em regiões com forte presença do agronegócio, como o noroeste paulista.
Empresários e gestores do setor avaliam que a integração de processos é um caminho viável para diversificar fontes de receita sem necessidade de expandir a área plantada.
O CO₂ biogênico da fermentação também pode ser recuperado, purificado e destinado a usos industriais ou a novas rotas de combustíveis e produtos químicos. Água e nutrientes das correntes líquidas podem ser recuperados e recirculados, reduzindo captação externa e volumes destinados a tratamento. Essa prática, além de diminuir custos operacionais, atende a demandas crescentes por sustentabilidade e eficiência no uso de recursos naturais. Para as usinas, a recuperação de água e nutrientes representa economia direta em insumos e menor pressão sobre mananciais locais, um ponto sensível em períodos de estiagem.
Bagaço e palha ganham novas rotas
O bagaço é um dos exemplos mais claros. Além da geração de vapor e eletricidade, parte dele e da palha pode ser destinada à produção de etanol 2G, biochar, bio-óleo, gaseificação e combustíveis renováveis. A escolha depende do balanço energético, da biomassa disponível e do valor obtido por tonelada de matéria-prima. Cada rota tecnológica exige investimentos específicos e apresenta diferentes margens de retorno, o que demanda análise criteriosa por parte dos gestores.
No contexto do interior paulista, onde a logística e a proximidade com centros consumidores são favoráveis, a diversificação pode fortalecer a competitividade das unidades locais.
A produção de etanol de segunda geração, por exemplo, aproveita frações do bagaço que antes eram queimadas em caldeiras. Já o biochar pode ser utilizado como condicionador de solo, agregando valor agrícola e contribuindo para a retenção de nutrientes. O bio-óleo, por sua vez, surge como alternativa para substituir derivados de petróleo em aplicações específicas. A gaseificação permite a obtenção de gás de síntese, que pode ser convertido em combustíveis líquidos ou produtos químicos.
Essas rotas, embora ainda em diferentes estágios de maturidade comercial, indicam que o bagaço deixou de ser apenas um subproduto energético para se tornar uma plataforma de múltiplas possibilidades.
Biorrefinaria integrada como estratégia
A proposta é tratar esses fluxos como matérias-primas de uma biorrefinaria integrada. Assim, a mesma tonelada de cana pode gerar, além de açúcar, etanol e eletricidade, biometano, bio-hidrogênio, biochar, bio-óleo, CO₂ recuperado e nutrientes, ampliando o faturamento com a matéria-prima já disponível. Esse conceito não exige aumento de área cultivada, mas sim a otimização dos processos industriais e a adoção de tecnologias de conversão.
Para os empresários do setor, a biorrefinaria representa uma oportunidade de agregar valor a cada etapa da cadeia produtiva, reduzindo a dependência de um único produto e aumentando a resiliência do negócio.
No noroeste paulista, onde a cana-de-açúcar é uma das principais atividades econômicas, a adoção desse modelo pode gerar empregos qualificados e movimentar a cadeia de fornecedores de equipamentos e serviços. A recuperação de CO₂, por exemplo, pode atender indústrias de bebidas, alimentos e química, criando novas relações comerciais na região. O biometano, obtido a partir da purificação do biogás, pode ser injetado na rede de gás ou utilizado como combustível veicular, reduzindo emissões e custos logísticos.
O bio-hidrogênio, ainda em fase de desenvolvimento, desponta como vetor energético de longo prazo, com potencial para descarbonizar setores intensivos em energia.
A integração de processos também favorece a economia circular, pois resíduos de uma etapa se tornam insumos de outra. A água recuperada pode ser reutilizada em torres de resfriamento ou na lavagem de equipamentos, diminuindo a necessidade de captação de corpos hídricos. Os nutrientes extraídos das correntes líquidas podem retornar ao campo como biofertilizantes, fechando o ciclo de nutrientes e reduzindo a compra de fertilizantes minerais. Essa abordagem sistêmica, além de ambientalmente responsável, melhora a margem operacional das usinas e fortalece sua posição no mercado.
Para os gestores de usinas e investidores, o desafio está em selecionar as rotas mais adequadas ao perfil de cada unidade, considerando escala, localização e acesso a mercados. A decisão deve levar em conta o balanço energético de cada processo, o custo de implantação e a previsibilidade de demanda pelos novos produtos. A fonte não detalhou valores de investimento ou prazos de retorno, mas indicou que a viabilidade depende de análises caso a caso.
No entanto, a tendência de diversificação é clara: usinas que adotarem o conceito de biorrefinaria tendem a extrair mais valor da mesma matéria-prima, reduzindo riscos e ampliando oportunidades de negócio.
Em um cenário de transição energética e busca por soluções de baixo carbono, o setor sucroenergético brasileiro tem a chance de se posicionar como fornecedor de múltiplos produtos renováveis. A cana-de-açúcar, já reconhecida pela eficiência na produção de etanol, pode se tornar a base de uma indústria ainda mais diversificada. Para as cidades do noroeste paulista, como Araçatuba, Birigui e Penápolis, o fortalecimento das usinas locais significa mais empregos, maior arrecadação e dinamismo no comércio e nos serviços.
A integração de novas rotas tecnológicas, portanto, não é apenas uma questão técnica, mas uma estratégia de desenvolvimento regional com impactos econômicos relevantes.
Perguntas Frequentes
Como as usinas de cana podem aumentar a receita além do etanol e açúcar?
Elas podem tratar correntes residuais como matérias-primas de uma biorrefinaria integrada, gerando biometano, bio-hidrogênio, biochar, bio-óleo, CO₂ recuperado e nutrientes, ampliando o faturamento com a mesma tonelada de cana.
O que pode ser feito com o bagaço e a palha da cana além da geração de energia?
Parte do bagaço e da palha pode ser destinada à produção de etanol 2G, biochar, bio-óleo, gaseificação e combustíveis renováveis, dependendo do balanço energético, biomassa disponível e valor por tonelada.
É possível recuperar CO₂ e água nas usinas de cana?
Sim, o CO₂ biogênico da fermentação pode ser recuperado e purificado para usos industriais ou novas rotas de combustíveis, e água e nutrientes das correntes líquidas podem ser recirculados, reduzindo captação externa e volume de tratamento.


























