Enfrentar o rentismo é essencial para reduzir os juros altos do Brasil

Crédito: Folha de S.Paulo
A discussão sobre a taxa Selic no Brasil vai além do ajuste fiscal. Segundo análise, reduzir juros altos do país exige enfrentar o rentismo — a lógica que privilegia a rentabilidade do capital financeiro. Para o autor, o debate envolve poder, desenvolvimento e distribuição de renda, e não pode ser resumido ao crescimento do gasto primário.
Rentismo: o debate vai além do fiscal
O autor sustenta que não é possível reduzir a explicação do patamar dos juros do Brasil, como faz uma vertente liberal, ao crescimento do gasto primário. Essa é mais que uma controvérsia de economistas ou uma disputa entre modelos teóricos: trata-se de uma questão decisiva para o futuro do país. A pergunta central é: por que o Brasil paga juros tão altos e o que precisamos fazer para financiar o nosso desenvolvimento? O rentismo aparece como um mecanismo que precisa ser enfrentado, pois naturaliza taxas que penalizam a produção.
O autor também questiona: se a vulnerabilidade externa foi reduzida e se houve longos períodos de resultados primários positivos, por que continuamos remunerando o capital financeiro a taxas tão superiores ao crescimento da economia? Essa indagação aponta para a necessidade de rever as explicações tradicionais e considerar outras dimensões, como poder e distribuição de renda. O debate, portanto, não se resume a números fiscais, mas envolve escolhas políticas e estruturais. Para empresários e comerciantes do noroeste paulista, entender essas forças é o primeiro passo para cobrar mudanças consistentes.
A tese de Samuel Pessôa sobre os juros
Em diferentes momentos e espaços, o autor e outros economistas têm debatido o tema com Samuel Pessôa, pesquisador cuja contribuição ao debate público merece respeito e atenção. Pessôa sustenta que houve diferentes etapas na formação dos juros brasileiros. Sua conclusão é que, quando o gasto primário cresce acima da economia, aumenta a disputa pelos recursos disponíveis e se eleva o juro de equilíbrio. Se o gasto crescer durante alguns anos no mesmo ritmo do PIB, os juros reais poderão convergir para patamares próximos de 3%.
Essa visão, no entanto, é confrontada pelo autor com a realidade brasileira: mesmo após períodos de superávit primário e redução da vulnerabilidade externa, as taxas continuam elevadas. Assim, a explicação focada apenas no gasto primário parece insuficiente. A discussão ganha contornos de poder e de correlação de forças na sociedade. Para quem depende de financiamento para expandir o negócio, essa diferença de interpretação impacta diretamente o acesso ao crédito e a viabilidade de projetos.
Meta de inflação em 3% é irrealista
O autor defende que é preciso partir de um diagnóstico correto sobre a formação da inflação e discutir a própria meta de 3% ao ano. Na avaliação dele, a meta é fixada em um patamar irrealista para a estrutura da economia brasileira e perseguida como se fosse um dogma. No Brasil, insiste-se na convergência acelerada para 3% como meta de inflação, desconsiderando inclusive a margem de tolerância prevista no regime de metas.
Essa rigidez acaba por justificar juros mais altos, o que encarece o crédito e inibe o investimento produtivo. No entanto, o autor não dá detalhes sobre qual seria a meta ideal, apenas aponta a necessidade de revisão. A fonte não detalhou modelos alternativos, mas deixa claro que a perseguição inflexível à meta atual tem custos sociais e econômicos. Uma meta mais realista poderia significar condições de financiamento menos severas, favorecendo a expansão.
Juros são escolha, não destino
O autor enfatiza que não dá para naturalizar esse mecanismo. A taxa de juros é o resultado de instituições, incentivos, correlações de forças, escolhas de política econômica e interpretações sobre o funcionamento da economia. Ou seja, os juros altos não são um fenômeno inevitável, mas uma consequência de decisões que podem ser revistas.
Essa perspectiva abre espaço para a ação política e social. Se os juros são determinados por instituições e escolhas, é possível alterar o rumo com mudanças na condução da política econômica. O autor reforça que o Brasil não pode aceitar como destino uma economia em que o capital encontra maior segurança e rentabilidade financiando a dívida pública do que construindo fábricas, desenvolvendo tecnologias, modernizando a infraestrutura ou criando empregos. Essa inversão de prioridades limita o desenvolvimento de regiões empresariais como o noroeste paulista.
Rentismo trava investimentos e desenvolvimento
Sem enfrentar o rentismo e sem reduzir o custo do capital, o país não alcançará os níveis de investimento necessários à reindustrialização, à transição energética, à transformação digital e à construção de um Estado de bem-estar social compatível com as necessidades do povo. Essa é a conclusão apresentada pelo autor para justificar a urgência de uma nova postura diante dos juros. O alerta vale para empresários de Araçatuba e região: o desenvolvimento local depende de um ambiente macroeconômico que valorize o setor produtivo.
Do ponto de vista de quem empreende, os efeitos são sentidos na dificuldade de obter crédito a taxas razoáveis e na concorrência desleal com a renda fixa, que atrai investidores para o financiamento da dívida pública. O resultado é um círculo vicioso em que a produção perde espaço para a especulação financeira. Reduzir o custo do capital é condição para que o comércio e a indústria possam crescer e gerar empregos.
Perguntas Frequentes
Por que os juros altos no Brasil estão ligados ao rentismo e não apenas ao quadro fiscal?
De acordo com os argumentos apresentados, reduzir os juros altos exige enfrentar o rentismo, pois a taxa de juros é resultado de instituições e correlações de forças, não só do gasto público. O rentismo faz com que o capital prefira financiar a dívida pública a investir em fábricas, tecnologia ou infraestrutura, perpetuando os juros elevados.
Qual é a explicação de Samuel Pessôa para os juros altos e qual a convergência esperada?
Samuel Pessôa argumenta que quando o gasto primário cresce acima da economia, aumenta a disputa por recursos e eleva-se o juro de equilíbrio. Se o gasto crescer no mesmo ritmo do PIB por alguns anos, os juros reais poderiam convergir para cerca de 3% ao ano.
Por que a meta de inflação de 3% é considerada irrealista para o Brasil?
O texto sustenta que a meta de 3% é fixada em um patamar irrealista para a estrutura da economia brasileira e é perseguida como dogma, desconsiderando a margem de tolerância do regime de metas. Defende-se a necessidade de discutir a própria meta e o diagnóstico de formação da inflação.




























