Ajuste fiscal de Lula: pressão por corte de gastos

Crédito: Gazeta do Povo
O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia seu quarto mandato em 5 de janeiro sob forte pressão por ajuste fiscal. Sem espaço para soluções fáceis, o petista terá de enfrentar a rigidez do Orçamento a partir dessa data, quando começa o novo mandato. Mais de 90% do Orçamento de 2027 está comprometido com despesas obrigatórias, o que limita a margem para investimentos e políticas discricionárias.
Segundo analistas consultados pela Gazeta do Povo, sem mudanças estruturais, a dívida pública continuará crescendo e poderá ultrapassar 100% do PIB nos próximos anos. Esse cenário acende um alerta para empresários e comerciantes de Araçatuba e região noroeste paulista, que dependem de um ambiente econômico estável para planejar investimentos e manter o fluxo de caixa.
Rigidez orçamentária limita margem de manobra
O Orçamento brasileiro é marcado por despesas obrigatórias, como salários, aposentadorias e benefícios sociais, que consomem a maior parte dos recursos. Com mais de 90% do Orçamento de 2027 já comprometido, o governo tem pouca flexibilidade para cortar gastos sem alterar leis e regras constitucionais. Essa rigidez é um dos principais desafios para o ajuste fiscal defendido por economistas e pelo mercado financeiro.
Desde 2014, o setor público só registrou superávit primário em 2022. A dívida bruta alcançou 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central (BC), e o mercado prevê que seguirá subindo enquanto o ajuste não vier. Para o comércio local, a trajetória da dívida afeta diretamente o custo do crédito e a confiança dos consumidores, fatores essenciais para o desempenho das pequenas e médias empresas.
Diálogo com economistas liberais
Segundo a CNN Brasil, o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, conversou nos últimos meses com economistas liberais em busca de sugestões para o ajuste fiscal. O movimento indica que o governo reconhece a necessidade de medidas para conter o crescimento da dívida, embora ainda não tenha anunciado um plano concreto. A aproximação com economistas de perfil liberal pode sinalizar uma abertura para propostas de corte de gastos e reformas estruturais.
No entanto, o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, não espera uma guinada de Lula no quarto mandato. A manutenção da política econômica petista significará, segundo ele, “aumento da dívida pública, aumento do déficit fiscal, do endividamento das pessoas e do endividamento do governo.” Essa visão pessimista reflete o ceticismo de parte do mercado quanto à disposição do governo em adotar medidas impopulares.
Modelo de crescimento em xeque
Outro desafio do próximo mandato é lidar com o modelo de crescimento econômico defendido por Lula, que se baseia em estímulos recorrentes de demanda. O modelo, no entanto, agora colide com a baixa produtividade da economia. Para Rodrigo Sgavioli, head de alocação da XP Investimentos, “quando você tem uma economia que desenha um modelo de crescimento por estímulo de demanda com baixa produtividade, o que acontece? Inflação”.
A inflação elevada corrói o poder de compra das famílias e aumenta os custos operacionais das empresas, especialmente no varejo e nos serviços, setores fortes na economia de Araçatuba e cidades vizinhas. Por isso, a busca por um ajuste fiscal não é apenas uma questão macroeconômica, mas uma necessidade para preservar a competitividade do comércio regional.
Risco de dominância fiscal
No pior cenário, sem medidas suficientes para recuperar a confiança do mercado, a dívida ultrapassa 100% do PIB até 2030, aumentando o risco de dominância fiscal — situação em que a deterioração das contas públicas dificulta o combate à inflação pelo Banco Central. Nesse contexto, a política monetária perde eficácia, e os juros podem permanecer altos por mais tempo, encarecendo o crédito para empresas e consumidores.
Evitar esse destino exige agir cedo e rápido. Sgavioli salienta que começos de mandato abrem uma janela de credibilidade: “cabe ao presidente usar essa oportunidade para trazer um choque de credibilidade”. Para os empresários da região, um choque de credibilidade significaria previsibilidade para investir, contratar e expandir seus negócios.
Janela de 18 meses para reformas
A Kinea acrescenta que o país terá 18 meses, entre janeiro de 2027 e meados de 2028, para fazer os ajustes. Depois, as campanhas das eleições municipais de 2028 travam a aprovação de reformas impopulares no Congresso. Esse prazo é crucial: se o governo não aproveitar a janela, as mudanças estruturais podem ficar para depois de 2029, adiando ainda mais a consolidação fiscal.
Para a Warren Rena e a Kinea, não haverá reestruturação do Orçamento adequada sem um “plano coeso de ajuste gradual”, fundamentado em um amplo pacto social. A construção desse pacto envolve diálogo com setores produtivos, entidades de classe e a sociedade civil, incluindo associações comerciais como a ACIA e a CDL, que representam os interesses do comércio local.
Impacto no comércio do noroeste paulista
Em Araçatuba e região, a incerteza fiscal já se reflete na cautela de empresários ao tomar decisões de longo prazo. A alta da dívida pública pressiona as taxas de juros, encarece o capital de giro e reduz a disposição dos bancos em financiar pequenos negócios. Além disso, a inflação persistente corrói a renda das famílias, diminuindo o consumo no varejo e nos serviços.
Entidades como a ACSP, o Sebrae e a Fecomercio têm alertado para a necessidade de um ambiente macroeconômico estável para a sobrevivência das micro e pequenas empresas. Sem um ajuste fiscal crível, o custo do crédito permanece elevado, e a recuperação do emprego formal fica comprometida. Para o noroeste paulista, onde o comércio e a agroindústria são pilares da economia, o ajuste fiscal não é apenas uma pauta nacional, mas uma questão de sobrevivência empresarial.
Perguntas Frequentes
Por que Lula está sob pressão para fazer um ajuste fiscal no início do novo mandato?
Mais de 90% do Orçamento de 2027 está comprometido com despesas obrigatórias, e a dívida pública pode ultrapassar 100% do PIB nos próximos anos sem mudanças estruturais.
Qual é o risco de não haver ajuste fiscal no governo Lula?
Sem ajuste, a dívida bruta, que já alcançou 82,9% do PIB em agosto, pode ultrapassar 100% do PIB até 2030, aumentando o risco de dominância fiscal e dificultando o combate à inflação.
Quais medidas são consideradas necessárias para evitar a piora das contas públicas?
Analistas defendem um plano coeso de ajuste gradual, com um choque de credibilidade no início do mandato, aproveitando a janela de 18 meses antes das eleições municipais de 2028.




























