Despesas financeiras do governo somam R$149 bi no semestre

Crédito: O GLOBO
As despesas financeiras do governo federal chegaram a R$ 149 bilhões no primeiro semestre, montante equivalente a 1,09% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse tipo de gasto, que envolve linhas de crédito e aportes em fundos, amplia a pressão sobre a dívida pública. Os números fazem parte de um levantamento da BRCG, que monitora as medidas de estímulo adotadas nos últimos anos.
Números do primeiro semestre
O valor registrado nos primeiros seis meses do ano se aproxima do total de 2025, quando a despesa financeira somou R$ 161 bilhões. Em um único semestre, o governo já comprometeu quase a totalidade do que foi gasto no ano anterior.
Além disso, os gastos com fundos e crédito subsidiado superam 1% do PIB e quase igualam o valor total de 2025.
Os dados da BRCG mostram que, nos últimos anos, esse tipo de operação está em alta. Entre 2024 e 2025, a despesa financeira quase dobrou em proporção do PIB. Em 2026, o ritmo segue em aceleração, o que indica que as operações continuam ganhando espaço nas contas públicas.
O que entra na conta
O gasto financeiro é diferente do gasto primário. Enquanto o primário inclui o desembolso clássico do governo — salários, aposentadorias, custeio da máquina e investimentos — e é o valor usado para o cumprimento do arcabouço fiscal, o financeiro engloba linhas de crédito e aportes em fundos.
Essa distinção é essencial para entender o impacto das contas públicas.
O que não está incluído?
Na conta da BRCG, no entanto, não entram os gastos com juros da dívida pública, que são os maiores itens entre as despesas financeiras. Esses juros não estão sob controle direto do governo, e o cálculo foca justamente nas medidas de estímulo que vêm sendo adotadas.
Por que esse indicador é relevante?
O indicador que considera as despesas financeiras é relevante para avaliar as ações do governo fora do gasto primário, levando em conta os efeitos sobre a economia e a inflação. Ele ajuda a dimensionar o esforço do governo para irrigar setores sem comprometer formalmente o resultado primário — receitas menos despesas, sem os juros.
Demanda e subsídios
Um dos casos emblemáticos é o crédito para motoristas de aplicativos. O desembolso previsto é de R$ 30 bilhões, mas, em uma previsão otimista, o que deve chegar às pessoas é cerca de um terço disso, por falta de demanda.
O alerta é feito por Manoel Pires, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e coordenador do Observatório de Política Fiscal do FGV Ibre, que reforça que há diferenças entre o governo oferecer um incentivo e ele, de fato, se transformar em demanda.
No gasto primário, a lógica é outra. Ao pagar salário de funcionário público ou benefício previdenciário, as pessoas usam o dinheiro ao longo do mês, o que tem efeito mais imediato na economia. Já no caso do crédito subsidiado, parte relevante das operações pode não se concretizar, especialmente quando não há procura suficiente.
Risco para a dívida
Parte significativa dessas operações, especialmente as lançadas este ano, tem taxas de juros abaixo das praticadas no mercado. Na prática, o governo usa um expediente que não viola as regras fiscais, mas que, segundo a BRCG, ajuda a reforçar a trajetória de elevação da dívida pública.
O suporte a segmentos da economia ocorre sem atrapalhar o esforço de obtenção de resultado primário e sem estourar o limite de gastos.
Esse tipo de operação, no entanto, não é isento de consequências. O estímulo dado por meio do crédito subsidiado, nesse contexto, reforça a trajetória de elevação da dívida. As despesas financeiras, portanto, ampliam a pressão na dívida pública.
Posição do Ministério da Fazenda
O Ministério da Fazenda afirmou que não comenta estudos de terceiros, mas fez ponderações sobre como os dados devem ser avaliados. O aumento do desembolso no primeiro semestre, segundo a análise, parece ter relação com a liberação muito grande no ano passado e ainda não desembolsada integralmente.
Perguntas Frequentes
Qual foi o valor das despesas financeiras do governo no primeiro semestre e como ele se compara ao ano passado?
A despesa financeira chegou a R$ 149 bilhões no primeiro semestre, equivalente a 1,09% do PIB. No ano passado, o total ficou em R$ 161 bilhões, e a proporção em relação ao PIB quase dobrou entre 2024 e 2025.
O que está incluído na despesa financeira calculada pela BRCG e por que ela não considera os juros da dívida?
A BRCG inclui linhas de crédito e aportes em fundos, como os gastos com crédito subsidiado, que superam 1% do PIB. Ela exclui os juros da dívida pública porque eles são o maior item das despesas financeiras, mas não estão sob controle do governo.
Como o governo consegue elevar as despesas financeiras sem violar o arcabouço fiscal e que impacto isso tem na dívida?
O governo usa essas operações para dar suporte à economia sem afetar o resultado primário nem o limite de gastos, mas parte tem taxas abaixo do mercado, o que reforça a trajetória de alta da dívida. Um exemplo é o crédito para motoristas de aplicativos: R$ 30 bilhões desembolsados, mas apenas um terço deve chegar às pessoas.




























