FIDCs ligados à Casas Bahia chegam a R$ 3,95 bilhões após RJ

Crédito: Valor Econômico
O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia, protocolado no último domingo, acendeu um alerta no mercado de capitais. Segundo levantamento da Uqbar, papéis ligados à varejista estão na carteira de 12 fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), que somavam patrimônio líquido de aproximadamente R$ 3,95 bilhões em julho.
- 12 FIDCs com exposição à Casas Bahia
- Patrimônio líquido total: R$ 3,95 bilhões (julho)
- Dívidas sujeitas à recuperação: R$ 17,3 bilhões
O levantamento aponta que esses veículos têm diferentes tipos de exposição à companhia, desde o financiamento do crediário e de fornecedores até a compra de títulos de dívida da própria empresa. O montante, portanto, não representa necessariamente o volume de créditos sujeito à recuperação judicial, que envolve cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas.
Risco sacado concentra maior exposição
O maior dos veículos identificados é o FIDC IBCB-AF01, com patrimônio de R$ 1,9 bilhão em julho, conforme o relatório da Uqbar. Administrado pela Hemera e gerido pela Intrabank Asset Management, o fundo é uma estrutura de risco sacado relacionada principalmente às operações com fornecedores, na qual empresas do Grupo Casas Bahia aparecem como sacadas.
Essa modalidade, na prática, funciona como um mecanismo de antecipação de recebíveis para fornecedores, com o pagamento atrelado à obrigação da varejista. A concentração nesse tipo de operação aumenta a sensibilidade dos cotistas aos desdobramentos da recuperação judicial.
A petição da recuperação judicial relaciona o fundo IBCB-AF01 entre os credores quirografários da varejista, com R$ 1,09 bilhão a receber. Ou seja, uma parcela relevante do patrimônio do fundo está diretamente vinculada à capacidade de pagamento do grupo.
Credores quirografários e riscos em outros fundos
Outro veículo com características semelhantes, o FIDC CBSB, tinha patrimônio de R$ 239,2 milhões e aparece na lista de credores com R$ 233,9 milhões. A diferença entre os valores pode estar relacionada a provisões ou ajustes contábeis, mas a fonte não detalhou os critérios utilizados.
Esses dois fundos, juntos, concentram mais de R$ 2,13 bilhões em patrimônio, o que representa grande parte do total de R$ 3,95 bilhões mapeado pela Uqbar. A condição de credor quirografário, em uma recuperação judicial, coloca esses investidores em posição de espera, sujeitos ao plano de pagamento aprovado pelos demais credores.
FIDC Grupo Casas Bahia: exposição ao crediário
Além deles, há veículos com exposição ao crediário da varejista. O FIDC Grupo Casas Bahia, criado em 2024 para financiar compras de clientes nas lojas do grupo, tinha patrimônio de R$ 159,6 milhões, mas já acumulava R$ 113,3 milhões em provisões para devedores duvidosos e R$ 32,2 milhões em créditos vencidos e não pagos em julho.
Esses números indicam que a qualidade dos ativos já vinha se deteriorando antes mesmo do pedido de recuperação judicial. O nível de provisão, equivalente a mais de 70% do patrimônio do fundo, expõe o grau de estresse do crédito ao consumidor no período.
Fundos que combinam recebíveis e dívida
Outro exemplo levantado pela Uqbar é o FIDC FGCB III Segmento Multicarteira, com patrimônio de R$ 384 milhões, que combina recebíveis do crediário com notas comerciais emitidas pela própria Casas Bahia. O fundo registrava R$ 66,9 milhões em provisões e R$ 49,4 milhões em créditos vencidos e não pagos.
Esse modelo híbrido permite aos cotistas diversificar as fontes de pagamento, mas também aumenta a complexidade da análise de risco. As provisões e os ativos em atraso representam aproximadamente 30% do patrimônio do fundo, o que reforça a necessidade de acompanhamento rigoroso.
O caso do grupo Casas Bahia ilustra como a saúde financeira de grandes varejistas afeta diretamente os fundos estruturados. Para empresários da região noroeste paulista que utilizam FIDCs como alternativa de financiamento, o episódio serve de alerta para a importância de avaliar a concentração de riscos em devedores específicos.
Reação dos cotistas e próximos passos
Os efeitos da recuperação judicial também começaram a aparecer nos fundos ligados ao BanQi, plataforma financeira do grupo. O FIDC BanQi EP, que tinha patrimônio de R$ 188,3 milhões, convocará assembleia para avaliar o grau de comprometimento de suas atividades após o pedido de recuperação.
No BanQi II, conforme o relatório da Uqbar, com R$ 141 milhões, os cotistas reconheceram a ocorrência de um evento de avaliação decorrente da recuperação judicial, mas decidiram pela não liquidação e manutenção do funcionamento regular do fundo. Decisão semelhante foi tomada no BanQi III, que tinha patrimônio de R$ 40,2 milhões.
Essas deliberações mostram que, ao menos por enquanto, os investidores preferem aguardar a evolução do processo a resgatar os recursos imediatamente. A manutenção das operações, contudo, não elimina a possibilidade de novos ajustes conforme as negociações avancem.
A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia deve repercutir nos próximos meses nas demonstrações desses fundos. A assembleia do BanQi EP será um dos primeiros testes de como os cotistas pretendem lidar com o cenário de incerteza.
Impacto no mercado e no comércio local
Para o comércio de cidades como Araçatuba, Birigui, Penápolis, Andradina e Mirandópolis, a situação da Casas Bahia não é apenas um caso corporativo. A varejista tem presença relevante no varejo nacional, e sua recuperação pode influenciar condições de crédito, prazos a fornecedores e a confiança do consumidor.
Segundo a Uqbar, os FIDCs mapeados têm diferentes exposições, o que pulveriza o risco entre investidores institucionais e cotistas qualificados. Ainda assim, o volume de R$ 3,95 bilhões evidencia a interdependência entre o varejo de grande porte e o mercado de capitais.
Empresários da região devem acompanhar os desdobramentos com atenção, especialmente aqueles que dependem de vendas a prazo ou de antecipação de recebíveis. A experiência mostra que a reestruturação de grandes redes pode gerar efeitos em cadeia, incluindo alterações em prazos de pagamento e maior seletividade na concessão de crédito.
Por ora, o mercado observa as respostas dos cotistas e a evolução do plano de recuperação. O caso reforça a importância de diversificar riscos e de monitorar indicadores de inadimplência em qualquer operação que envolva direitos creditórios.
Perguntas Frequentes
Quais FIDCs estão expostos à Casas Bahia e qual o patrimônio total?
Segundo levantamento da Uqbar, há 12 FIDCs com papéis da Casas Bahia em carteira, somando patrimônio líquido de aproximadamente R$ 3,95 bilhões em julho. O montante não representa necessariamente os créditos sujeitos à recuperação judicial, que envolvem cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas.
Qual é o maior FIDC ligado à Casas Bahia e qual a sua exposição?
O maior é o FIDC IBCB-AF01, com patrimônio de R$ 1,9 bilhão em julho. É administrado pela Hemera e gerido pela Intrabank Asset Management, sendo uma estrutura de risco sacado relacionada a operações com fornecedores. Na recuperação judicial, aparece como credor quirografário com R$ 1,09 bilhão a receber.
Como a recuperação judicial afetou os FIDCs do BanQi?
O FIDC BanQi EP, com patrimônio de R$ 188,3 milhões, convocará assembleia para avaliar o comprometimento de suas atividades. Já o BanQi II (R$ 141 milhões) e o BanQi III (R$ 40,2 milhões) reconheceram a ocorrência de evento de avaliação decorrente da RJ, mas decidiram pela não liquidação e manutenção do funcionamento regular.




























